sexta-feira, 5 de novembro de 2010

que desalento...

“Que desalento...”. Pensou. “Aqui é perigoso pensar.” Continuava perdida em seus pensamentos deitada em sua cama quente. O calor aumentava naquela época do ano, mas na madrugada o ar era agradável. A janela sem cortinas refletia a luz da lua e era justamente esta luz que não deixava que ela adormecesse.
Pensava nas coisas terríveis que poderiam acontecer durante a noite se fechasse os olhos. Ela tinha medo que invadissem sua mente para vasculhar seus pensamentos e encontrassem, eles, os seus juízes, alguma coisa que pudesse incriminá-la. A busca certamente seria rápida, pensava ela sempre que ficava com medo. Os pensamentos mais perigosos estavam sempre a vista. Pensamentos sobre amor, sedução, sensualidade. Pensamentos sobre dor, desespero, traição e medo. Sempre o medo. Ela sentia tanto medo que às vezes sentia-se paralisar, sentia o coração parar por um terço de segundo e o ar faltar em seus pulmões.
“Se tenho tanto medo por que faço tanta loucura?”. Porque ela apesar de temer quase tudo, tinha uma capacidade incrível de embreagar-se com facilidade do esquecimento momentâneo. Ela fumava felicidade, cheirava sensualidade, bebia loucura. Dos tóxicos aos naturais, dos verdes aos vermelhos, do seu céu ao inferno: nunca faltava, mas sempre acabava.
Menina malvada, menina safada, menina depravada. Menina? O rosto engana. A alma corrompida sentia a tristeza roer suas entranhas como um rato roí o lixo. Ela se sentia podre e suja, apesar de estar bem vestida e pintada. Podia estar várias: roupas diferentes, sapatos, bolsas, acessórios...podia mudar o cabelo, a cor do esmalte, o batom. Mas não podia mudar a essência que invariavelmente construía-se com o passar de sua existência.
Desde cedo perdida e sozinha, coisa muito boa não pode dar. Ela era boa. Com certeza. Boa em mentir. Boa em inventar histórias. Boa em fugir. Boa em sofrer. Ela era boa no que havia de pior. E assim, acostumou-se a migalhas, a solidão, a ser algo que no fim, não sabia se queria ou não ser.
A origem é triste assim como de tantos outros que não a usaram como desculpa para a perdição. É mais fácil culpar qualquer outra coisa a não ser a si mesmo. Ao invés de se preocupar com o futuro ela se preocupava com o agora. No máximo com a próxima vítima. Ou com o próximo plano para recuperar seu orgulho ferido.
Orgulho? Dignidade? Acredito que isso está muito distante das condições de vida dela. “A baixa alto-estima leva a prática irracional de sexo”, foi o que alguém lhe disse. Pode até ser verdade, só que ela estava demasiadamente preocupada com seus cabelos para refletir sobre isso.
Já que ele não a amava começou a acreditar na possibilidade de que morreria sozinha, sem amor, sem compaixão, sem dignidade, sem felicidade. Por isso ela prometeu entre um excesso de loucura e desespero: “Eles podem ter o meu corpo, jamais meu coração. Este é seu e somente seu”. Ele nunca ficou sabendo da promessa.
Indiferente com os problemas advindos de seu comportamento, não economizava, não deixava para depois. A fome é grande depois de comer “chocolate”. A sede é grande quando se está com a “Bianca”. Nesse ciclo vicioso, ela estava viciada. Ela estava perdida. O consolo era ele, seu querido escritor, incompreendido assim como ela. Chorava ao ler as palavras de seus livros. Implorava por dias melhores. Por horas melhores. Implorava para melhorar da ressaca e ter forças para levantar da cama.
Você já sentiu o desespero invadir suas veias? Já sentiu a dor profunda de não querer fazer nada? De não encontrar sentido em absolutamente nada a não ser querer mais e mais e mais daquilo que te sufoca, te tortura, te violente, te rouba, te faz sangrar e lentamente te mata?
 Quando não há reflexão sobre a própria existência cria-se uma essência da qual não se tem consciência. Quinze anos ou quinze minutos não faziam diferença para quem havia perdido o brilho de ser eterno. O problema é que ela acreditava ser eterna apesar de aparentar crer ser a morte algo natural, banal, do qual era indiferente. Talvez o grande medo de viver seja somente um grande medo incompreendido da morte.
Naquela noite ela não conseguia dormir. Não consegui pensar além de “que desalento...”. Não conseguia estruturar seu pensamento, encontrava-se afundando na areia movediça da droga inebriante. Foi então que decidiu escrever suas histórias. Um pouco para diminuir a culpa, outro tanto para procurar se ensoberbar e por fim para procurar ativar a mente débil. Nesta noite nasceu a Vampira.

por: Maura Lisboa

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